Ladrão dentro da Lei
Enterrado na cadeira bordeaux, as ligações químicas cerebrais não paravam, embora ele apenas desejasse deixar-se encantar pelo romancezeco-de-livraria-de-vão-de-escada e iludir o seu pessimismo com bonitas de sentenças acerca de quão bom é viver e amar.
“Talvez haja uma mística no leste: o ar gélido, a tez lívida…o olhar impenetrável! Há indubitavelmente a mística da questão filosófica a que se resume o processo de maturação: sobreviver dentro da Lei. Aqueles tipos têm de saber muito da vida para existirem dentro de um círculo tão apertado”.
Decidido a não mais deixar-se invadir por questões complicadas, abandonou a cadeira bordeaux para ir mergulhar no sofá da mezanine de onde se veria o pôr-do-sol, caso ele se estivesse a pôr. Estendeu as pernas e pousou os pés ainda descalços, porque isso de usar chinelos de quarto é para mariconços, no mobiliário adequado, a mesa de apoio à mezanine. Cruzou os braços como que em sinal de protesto juvenil sob o jugo da proibição de sair e observou simplesmente o mar, na esperança de coisa nenhuma. Miguel não esperava nada feito.
Miguel era um ladrão dentro da lei dos tempos civilizados, a metáfora perfeita! No âmago da sua excentricidade tentava conferir à sua vida uma qualquer normalidade, para lá das teorias conjecturadas na mezanine acerca da vida, do caminho de deus e das descobertas, sabia que não podia ir até à praça do mundo explicar todas as suas conclusões e convertê-los, aos outros, à sua crença, à religião da Humanidade. Ninguém o quereria ouvir e mesmo que alguém quisesse, muitos não o compreenderiam, ora porque eram os piores dos cegos, ora porque as suas limitações o não permitiam. Na verdade, a grande maioria, ainda que convocada, arranjaria uma qualquer desculpa mundana, como o ter que ir trabalhar para não estar presente. Como se um dia de trabalho não pudesse ser desperdiçado nem para assistir à revelação, mas eles coitados não percebiam, nem Miguel os julgava por isso, condescendia-se… Assim se ia escudando Miguel, para encarreirar com todos os outros, acordar de manhã, apanhar o metro e dizer um bom dia sorridente ao mundo dos normais. Mas o conflito ia estando latente como um vulcão de pedra amarela prestes a derrubar os grilhos.
A Lei moral é a que mais atormenta: porque não posso simplesmente fazer o que quero? Porque me acorrenta a suposta moral comunitária com a qual não me identifico? Assim sou eu: a tentar enganar as leis restritivas dentro da lei, a tentar encontrar o meu lugar ao sol num descampado à sombra, desvios de Miguel que nem se apercebia que dificilmente existiria um descampado à sombra.
Depois destes pensamentos reconfortantes, Miguel voltava ao lado normal da sua vida, mas sempre que se encontrava sozinho, sentia que tinha uma vida paralela, havia um qualquer lugar no mundo onde ele poderia ser ele e em que o percebiam e o recebiam como Messias. Como se a dado momento temporal desta nossa realidade houvesse a possibilidade de dizer as palavras mágicas que lhe abriam a porta para o mundo ao lado onde a mente se elevava sobre o quotidiano desvalorizado. Mundos paralelos, porque como as linhas não se tocam, só ele, Miguel, tinha a possibilidade de com as palavras mágicas construir a ponte que lhe permitia oscilar entre um e outro, mais ninguém podia… ele tinha sido escolhido, porque tinha sido pioneiro na descoberta.
Enquanto estes pensamentos cubistas lhe mordiam o crânio ele ia-se auto-justificando pela sua anormalidade intelectual.
Miguel era difícil. Miguel sabia que precisava de trabalhar para viver e que ninguém lhe pagaria para olhar para as nuvens e pensar sobre o que quer que fosse, a não ser que isso trouxesse dinheiro a esse alguém, o que não era o caso. Miguel não era um brilharete lá na área dele, limitava-se a fazer o que lhe pediam. Fazia estudos de mercado. Nada muito criativo, coordenava uma equipa de campo e era coordenado por um director simpático, positivo e sempre cheio de iniciativas para o bom ambiente no trabalho! Ele ia sorrindo amareladamente… e sonhava com o outro mundo que só ele conhecia… Lá ia ele nesse noite para mais uma iniciativa do departamento de marketing, que uma vez mais culminaria num copo nos meninos do rio, para meninos patéticos e muito pouco idiotas!
Após um árduo dia de trabalho de 7 líquidas horas é recebido de peito aberto o momento alto daquelas vidinhas, o momento em que uma inofensiva matilha abandona o escritório metálico e sai em busca da descontracção proporcionada pelo espírito de equipa estimulado pelo ora-porreiraço-director-ora-treinador-de-balneário. Uma hora a matar conversa com este e com aquela e Miguel já suspirava e ansiava pela sua mezanine, pela possibilidade de se reconfortar na sua varanda intelectual de onde os via de cima e lhes acenava. Mas não, ia ter de ali continuar sob pena de lhe ser carimbado na testa mais um estigma qualquer acerca da sua personalidade anti-social.
Será que não há aqui ninguém capaz de existir verdadeiramente. Até há uns quantos cultores da actualidade, daqueles que devoram jornais semanais, diários, económicos e informativos. Dos que vêem o Canal História, o Odisseia e a Sic Notícias. Dos que estão plenamente informados sobre quem ganhou as eleições no Togo, sobre as cheias nos Camarões, sobre as tender offers no Uruguai, sobre o vencedor do festival da canção na Índia, sobre o Big Brother na Venezuela. Será que não passam de enciclopédias ambulantes, na melhor das hipóteses?
A grande maioria deles sabia mais do Mundo que o próprio Miguel, o ser superior, mas, pensava Miguel, não sabiam trabalhar a informação.
Se o tipo da TVI tinha dito que o Bush é que era, então era isso mesmo, se o da SIC dizia que o Al Gore era o maior, então era mesmo. Conheciam todos os factos actuais e desactualizados, mas não conseguiam pensar acerca deles.
E era por isto mesmo que Miguel, tal como Virgílio no seu momento, cria que eles precisavam de uma aparição.
- Então e tu – questiona-o Gisela, a tagarela – em quem vais votar para ser o melhor português de sempre?
- D. João II, é o som emitido pela cavidade bucal de Miguel, que não tinha investido dois segundos do seu tempo a ponderar essa questão pelo simples facto de se recusar a participar nessas manifestações populistas de democracia, ainda para mais num país em que a democracia ainda não havia sequer atingido a puberdade.
- A sério, porquê?
Como se não fosse evidente o suficiente, pensa Miguel, que teve vontade de responder: sei lá, porque plantou o pinhal de Leiria, ah não, esse foi o D. Dinis, ah, já sei, porque reconstruiu a Baixa, ah não, esse foi o D. José, já sei, porque João é o nome do meu pai e 2 é o meu número da sorte.
- Porque foi o Príncipe Perfeito, ouviu-se dizer.
- Eu – começa a empertigada Daniela – acho isso tudo uma grande treta, ainda vai ganhar a Amália ou o Figo, o que prova as nossas limitações.
- Já estás tu outra vez contra o sistema – espicaça-a Rui, o engatatão.
- Não é isso, – continua Daniela – nós mal sabemos o que é votar em consciência, as pessoas não sabem porque votam quando se trata de escolher um qualquer governo do que seja e depois vamos todos votar no melhor português. Primeiro ensinem o que é o voto, o que é o dever de votar, o dever de estar informado e depois brinquemos com os votos e aí até podemos votar no par de sapatos mais bonito de todos os tempos ou no equipamento de futebol mais sexy de sempre. Até lá não participo nessas manifestações popularuchas…
- … de democracia, ouvir-se Miguel dizer.
Sete cabeças se viraram para ele, como que surpreendidos por ele ter adivinhado o fim da frase de Daniela, ao que Miguel se pretendeu desentendido.
- Não me digas que também achas isso – interroga-o Rui, desta vez verdadeiramente curioso com a coincidência ou sintonia de pensamentos e ligeiramente enciumado por não ter sido capaz de compreender Daniela e ser ele próprio a acabar as frases dela, assim como dois namorados apaixonados dos tempos modernos.
- Eu não acho nada – responde-lhe Miguel já arrependido por a sua desatenção face às regras de socialização o ter levado a entrar naquela discussão, quando tinha conseguido passar o primeiro teste com aquela resposta brilhante!
Assim morreu a conversa dos portugueses médios acerca dos melhores portugueses, mas não sei sem que Miguel tivesse olhado de soslaio para observar Daniela a quem nunca tinha prestado atenção, mas que acabava de a despertar e a prendia, sem que ela própria se desse conta.
Ora aqui está uma pessoa que tem qualquer coisa a ver comigo, mesmo ao meu lado… Será que ela também tem um mundo só dela de onde vê o outro lado do cubo multicolor, que para os outros não passa de bum quadrado azul?
É Daniela quem reintroduz a conversa na mesa, mencionando, para espanto de Miguel, o seu envolvimento profundo em certo projecto piloto de um grupo itinerante de discussão acerca de perspectivas de vida, que vai circulando por várias partes do país e acolhendo os diferentes interessados, mas sempre coordenado por ela mesma e um grupo de amigos seleccionados, como ela explicou, como se fossem carne de porco para fazer fiambre.
Hum… Quem diria que ainda encontraria almas pensantes num sítio como este… e ela até parecia uma pessoa como todas as outras. Será que ela estaria interessada em… nahhh… ia ser uma seca para ela.
Assim se perdia Miguel nos caminhos do conflito, numa Faixa de Gaza interior em que qualquer ser neutral seria bombardeado pelos dois lados, naqueles sítios do mundo onde até há canibalismo militar, que é como quem diz, até se mata o seu. Enquanto isto, Daniela continuava a entreter a mesa com as suas histórias originais, das quais ela se orgulhava e sem perder pitada do mundo dos comuns. É aqui que Miguel se interroga se vale a pena ser uma ilha paradisíaca que todos querem visitar mas ninguém lá quer viver ou se é preferível ser o pequeno paraíso onde, para lá do paraíso, há uma base de razoabilidade que os faz ser uma comunhão.
Vale a pena ser artista reconhecido postumamente? Ser lembrado, admirado e invejado pelo mito? Ou é melhor opção abdicar de me transformar num criador de ideias orgulhosamente só e viver a normalidade e o, já também normal, conflito interior dos anormais que decidem que a revolta é para perdedores e portanto engrenam na grande máquina, hoje em dia, da globalização. Eu nem uma arte tenho… a minha arte é pensar, como a do Gabriel. Aquilo que eu melhor faço é mesmo ter ideias, não para grandes quadros, nem para grandes filmes, nem para grandes músicas, nem para grandes poesias. Só grandes ideias…
- Miguel, Miguel… Cu Cu!
- Hum, diz… digam – indaga Miguel repentinamente puxado de volta a este mundo e vendo as mesmas sete cabeças todas à sua volta, com a diferença que estava sentado e as cabeças assentavam em corpos, cujas pernas estavam estendidas verticalmente ao chão.
- Vamos embora ou ficas aqui a conversar com os botões que não tens?
- Vou, vou, claro.
Assim se levanta Miguel, sem saber se zangado consigo por não ter sido capaz de manter a atenção na conversa do grupo, se simplesmente confirmando mais uma vez que a sua existência é a mesma de um ladrão dentro da lei.
